As actividades extra-curriculares podem influenciar o futuro profissional?

Segue-se um artigo interessante acerca da importância das actividades extracurriculares para a nossa formação a nível pessoal e profissional, escrito por Maria MArtins para o Expresso.

“Muitas vezes olha-se de lado para as atividades extracurriculares na universidade. O receio de que roubem demasiado tempo ao estudo e que apenas contribuam para mais umas horas de farra, faz com que nem todos alcancem o seu lado positivo.

Ao conviverem com outros colegas em grupos de teatro, coros, desporto ou tunas, os estudantes universitários desenvolvem as tão importantes soft skills, que rivalizam com as competências técnicas em qualquer entrevista de trabalho. São elas que fazem, muitas vezes, tocar campainhas na cabeça dos recrutadores, como aconteceu com Vasco Câmara Pereira logo na primeira entrevista, depois de fazer um discurso ‘inflamado’ sobre as virtudes da sua participação na tuna do Instituto Superior Técnico.

Os estudantes que se focam sobretudo nos estudos ficam limitados às aprendizagens que acontecem no ambiente formal das salas de aulas, de acordo com planos curriculares estabelecidos. “Mas o envolvimento em atividades extracurriculares amplia e diversifica o leque de situações em que essas competências podem ser desenvolvidas”, diz Sónia Fraga, psicóloga do Instituto de Orientação Profissional, da Universidade de Lisboa. Estas atividades ajudam os alunos a refletir sobre si próprios, a descobrir motivações e pontos fortes e a aprofundar interesses. Mas também lhes permitem desenvolver e melhorar competências transversais – como a comunicação em público, o trabalho em equipa, a cooperação, e a autonomia – ao serem confrontados com situações e vivências em que necessitam de se articular com outras pessoas e defender pontos de vista.

Com as apresentações da tuna, perante 3 mil pessoas, Vasco ganhou estaleca para ser um bom profissional.

“As atividades extracurriculares são experiências em que os jovens podem amadurecer competências, tais como o trabalho em equipa e a cooperação, o sentido crítico, o planeamento e organização, a iniciativa e autonomia, bem como o sentido de responsabilidade”, explica a psicóloga. E estas competências são, a par com os conhecimentos técnicos que à partida se dão como adquiridos depois de uma licenciatura, os verdadeiros trunfos de um estudante que não tem experiência de trabalho para incluir no currículo. Vasco Câmara Pereira, 32 anos, entrou numa tuna pela primeira vez aos 12 anos, no Liceu Nacional de Évora, e ficou de tal forma rendido, que quando teve de tomar uma decisão sobre o curso a seguir, escolheu primeiro a escola, porque queria fazer parte da TUIST, a tuna universitária do Instituto Superior Técnico.

Vasco garante que a tuna do Técnico moldou a sua personalidade como homem, apesar de tal nunca lhe ter passado pela cabeça quando se inscreveu, “logo no primeiro dia de aulas”. Ali ganhou sentido de responsabilidade e uma bagagem que lhe abriram as portas do mercado de trabalho e o ajudaram a tornar-se um bom profissional. Quando na primeira entrevista de emprego, referiu a sua participação na tuna como um marco importante da sua vida, e o entrevistador lhe perguntou de que forma “um bando de arruaceiros lhe poderia ter ensinado alguma coisa”, Vasco ofendeu-se e fez-lhe um discurso sobre tudo o que tinha aprendido ao longo dos cinco anos do curso de Engenharia Informática no Técnico. Mais tarde soube que esse foi o momento-chave da entrevista, pois foi ali que mostrou o que valia, ao revelar postura positiva perante a vida.

“A tuna deu-me o à-vontade que preciso para fazer propostas – que podem valer milhões de euros – a grupos de pessoas que não conheço, e em ambientes que não são o meu”, explica Vasco, que é hoje consultor sénior na Altitude Software. Para conquistar clientes, leva na bagagem não apenas os conhecimentos técnicos, mas o que aprendeu nas muitas apresentações dos espectáculos da tuna – algumas para plateias de três mil pessoas no Coliseu dos Recreios, em Lisboa -, negociações de patrocínios com grandes empresas, com presidentes da Câmara Municipal de Lisboa e mesmo com o Presidente da República, para arranjar dinheiro para espectáculos, arraiais e viagens. “Aprender a falar com qualquer pessoa, desde o carpinteiro e o técnico de som, ao director de uma empresa ou ao primeiro-ministro, é uma estaleca que nenhuma cadeira na faculdade me deu”, diz com convicção.

Inês teve de aprender a gerir o tempo para conciliar o ténis com o curso.

É nos bastidores destas actividades extracurriculares que os estudantes se podem formam para a vida. “Mas as competências acabam por estar dependentes da natureza da atividade realizada, bem como de caraterísticas do próprio jovem que possam ser mais salientes”, explica a especialista Sónia Fraga. No teatro ou num coro é possível aperfeiçoar a gestão de tempo, a capacidade de organização ou mesmo de gerir conflitos, por exemplo. Ana Rita Costa, 23 anos, inscreveu-se no Coro Misto da Universidade de Coimbra apenas no último ano de Enfermagem, mas ainda a tempo de retirar benefícios da experiência. Como 1.ª secretária da direção do coro, a jovem enfermeira desenvolveu o sentido de organização, aprendeu a trabalhar em equipa, a gerir conflitos e ganhou responsabilidade “mais cedo do que a maioria dos colegas de curso”. Além disso, o facto de o coro a colocar em contacto com outras realidades, também a “ajudou a amadurecer”. Mesmo reconhecendo que o curso que fez na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, lhe ensinou algumas destas soft skills, Ana Rita teve a vantagem de poder usá-las na prática – na interacção com os colegas, mas também no seu trabalho administrativo -, e “só experienciando é que se aprende”, garante.

Inês Macedo, mestre em Engenharia Biomédica, deve ao desporto a capacidade de organização e uma eficaz gestão de tempo. “Habituar-me a ter pouco tempo para fazer os trabalhos de casa e estudar, fez de mim uma aluna aplicada”, mas também o espírito competitivo que desenvolveu e que a obriga a perseguir os melhores resultados em tudo o que faz, e a nunca desistir à primeira adversidade. Depois de ver recusada a candidatura a uma bolsa de doutoramento “por duas centésimas”, Inês reviu tudo ao pormenor e detetou um engano na nota atribuída ao Centro no qual pretende desenvolver o projeto, o que a fez recorrer. Enquanto aguarda o resultado, não baixou os braços e candidatou-se a uma bolsa de investigação de seis meses na Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade Nova de Lisboa. Graças à persistência e iniciativa desenvolvidos nos courts de ténis, a engenheira biomédica de 23 anos está a trabalhar num projeto de investigação, que a deverá manter ocupada enquanto não chega o resultado do recurso.

Se ainda lhe restam dúvidas sobre as virtudes das atividades extracurriculares, acrescentamos mais um facto. Segundo um estudo realizado pela Montana State University, os estudantes que se envolvem neste tipo de iniciativas tornam-se, geralmente, melhores líderes.”

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